Por que uma pesquisa feita pelo território
Comunidades negras e periféricas têm sido frequentemente vítimas de estereótipos e silenciamentos ao longo da história do Brasil — uma imagem distorcida alimentada pela mídia, pela cultura popular e pelos discursos públicos, e também pela falta de produção de dados coerente com a realidade do território. A ideia de que a periferia é apenas o lugar da precariedade reduz a complexidade desses espaços e apaga suas potências.
O Bytes de Mudanças parte do princípio oposto: pesquisa produzida dentro da favela, coordenada e desenvolvida por pessoas que são do território. As pessoas entrevistadas são sujeitas dos dados produzidos, não meros objetos — têm controle, agência e participação na construção e na narrativa das próprias experiências. Como escreve Grada Kilomba, “trata-se do momento em que o sujeito falante fala de sua própria realidade, um ato real de descolonização e resistência política” (KILOMBA, 2019).
O contexto
A pesquisa nasce da atuação conjunta da Casa Hacker e do Instituto Semear em dois territórios de Campinas (SP): o Parque Via Norte e a Vila Olímpia. O pano de fundo é o abismo digital brasileiro — a internet chega a 90% dos domicílios, mas as habilidades digitais básicas não acompanham, e é nas periferias que essa distância cobra o preço mais alto: no acesso a direitos, serviços, renda e participação.
Mensurar com rigor era parte do compromisso: a pesquisa estabelece linha de base e medição de resultados, praticando a geração cidadã de dados — dados produzidos pela comunidade, para orientar decisões da comunidade.
Metodologia
Educadoras dos dois territórios foram formadas e conduziram todas as etapas:
- Sessões generativas — oficinas participativas com adultos na Vila Olímpia e com crianças no Via Norte, para emergirem temas, práticas e desejos em torno da tecnologia;
- Validação com os educadores — as sínteses das sessões voltaram às equipes locais para checagem e ajuste;
- Questionários — aplicados nos dois territórios, cobrindo perfil demográfico (identidade de gênero, cor/raça, idade), acessos, habilidades e interesses;
- Entrevistas em profundidade — participantes de 10 a 65 anos, ouvidos sobre usos, medos e aspirações.
O que a pesquisa mapeou
- Perfil demográfico dos territórios pesquisados;
- Acessos: quais dispositivos e conexões existem de fato nas casas;
- Potências e habilidades já desenvolvidas — o que as pessoas já sabem e fazem com tecnologia;
- Habilidades a desenvolver e as dificuldades no caminho;
- Medos no uso da internet (“você tem medo de alguma coisa quando usa a internet?”);
- Interesses: o que as pessoas fazem no celular, que cursos desejam, o que criariam com tecnologia e com o que sonham trabalhar.
O que ela gerou
Os achados fundamentaram as trilhas de aprendizagem de inclusão digital por faixa etária — a tecnologia social do Inclusão Tech transferida a organizações de assistência de Campinas — e seguem abertos para uso por pesquisadores, educadores e gestores públicos.